Publicado por: noticiasdesiao | 12 de junho de 2015

ANTÓNIO MANUEL DE VIEIRA

UM JUDEU PORTUGUÊS E UM COMUNISTA ARREPENDIDO

Sobre suas origens sabe-se que nasceu na Província do Minho, que era Judeu e que conquistou a Rússia. Pelo menos o respeito do czar russo.

António Manuel de Vieira

Não se sabe ao certo em que freguesia, vila ou aldeia nasceu António Manuel de Oliveira, mas sabe-se que ficava no Minho, região onde hoje mora o autor desse blog; e que teria imigrado para a Holanda, como fizeram também os antepassados do autor desse blog. E como tenho algo em comum com António Manuel de Oliveira, quero compartilhar com vocês uma entrevista feita com José Milhazes, o autor do livro “O Favorito Português de Pedro O Grande” (Editora Leya).

Nascido no Minho, Vieira emigrou para a Holanda na companhia do seu pai. Não é certo se foi ali ou em Londres que se deu o encontro que mudou sua vida. O episódio foi assim descrito por um estudioso russo: “Quando comandava um navio, Pedro I prestou atenção a um jovem marinheiro, quase criança, com traços fisionómicos hebraicos […]. Quando terminaram as manobras, o czar mandou chamá-lo, elogiou a sua habilidade, deu-lhe um táler, perguntou-lhe quem era e donde vinha. O marinheiro respondeu rapidamente que se chamava Anton Devier, que era filho de um judeu português que emigrara para a Holanda”. A partir daí, o português e o czar criaram uma relação de absoluta confiança e o antigo grumete conquistou postos de relevo, como chefe da Polícia de S. Petersburgo. A simples menção do seu nome fazia tremer os habitantes da nova capital.

A história é contada pelo historiador José Milhazes no seu último livro e na entrevista abaixo o português explica como passou a interessar-se pela biografia do judeu António Vieira e como se deu a sua própria ligação com a Rússia e seu sistema Comunista.

O Favorito Português de Pedro o Grande

SOL — Recorda-se da primeira vez que ouviu falar de António de Vieira?

JOSÉ MILHAZES — Foi por volta de 1977, quando me dediquei ao estudo das relações entre Portugal e a Rússia. Este tema sempre me interessou muito enquanto historiador. O próprio António de Vieira e muitos dos seus descendentes são personagens históricos que atraem a curiosidade.

SOL — O que significava exatamente o estatuto de ‘favorito’ do czar?

JM — ‘Favorito’ significava ser um colaborador próximo do czar. Era alguém em quem Pedro o Grande confiava tarefas de grande responsabilidade, de importância estatal.

SOL — O que poderá ter levado o czar a interessar-se por este modesto marinheiro e, mais tarde, a afeiçoar-se a ele?

JM — António de Vieira era uma pessoa extremamente competente, ativa e corajosa. Além disso, tinha uma qualidade rara na Rússia: era incorruptível.

SOL — A corrupção era então um problema grave na Rússia?

JM — A corrupção era e continua a ser uma das maiores chagas no tecido social da Rússia. Tal como no passado, as pessoas próximas do czar, ou seja, os homens próximos do Presidente Putin, preocupam-se seriamente com o enriquecimento não só de si próprios, mas também dos seus familiares, amigos e clientes.

SOL — Que país encontrou Vieira quando chegou à Rússia no início do século XVIII?

JM — Um país enorme, mas atrasado. É de salientar que António vinha da Holanda ou da Inglaterra, dois dos países mais desenvolvidos do mundo de então.

SOL — O que seria mais estranho para um visitante português? A comida? Os Invernos? Os hábitos? As mentalidades?

JM — Tudo era estranho para um estrangeiro nesse longínquo país, mas, pelos vistos, o judeu português soube superar tudo, mesmo o Inverno da Sibéria.

SOL — Vieira participou na construção de S. Petersburgo. Ainda podemos ver marcas concretas da sua passagem?

JM — Há documentos da sua participação ativa na construção da nova capital russa, desde a criação do serviço ao combate de incêndios até à manutenção da segurança.

SOL — O fato de ter sido construída desde a base no início do século XVIII tornou S. Petersburgo uma cidade com uma cultura própria, diferente de uma cidade mais antiga como Moscou?

JM — São Petersburgo e Moscou são cidades completamente diferentes. A primeira é tipicamente europeia, enquanto a segunda tem muito de russo na sua arquitetura. Os habitantes de S. Petersburgo acham-se mais europeus do que os moscovitas. Existe uma especial concorrência entre as duas e São Petersburgo sentiu-se sempre marginalizada depois de deixar de ser capital em 1918.

SOL — Na corte russa havia outro português, o bobo João da Costa. Qual era a função do bobo? Dizer piadas, fazer truques, animar o soberano, ou tinha também responsabilidades mais sérias?

JM — Bobo era uma função muito mais importante do que alguns imaginam. João da Costa era uma pessoa extremamente culta e, em alguns casos, uma espécie de conselheiro de alguns dos czares russos. Pedro o Grande gostava de conversar com o bobo de origem portuguesa sobre os mais variados temas, incluindo religiosos.

SOL — Após a morte do seu protetor (Pedro o Grande), António Vieira acabou por cair em desgraça e foi deportado para a Sibéria. Como foi a sua vida no exílio?

JM — Não desistiu, não baixou os braços. Continuou a trabalhar, principalmente na área da navegação. Talvez o trabalho o tenha ajudado a sobreviver na Sibéria durante os 15 anos que lá passou.

SOL — Tal como António de Vieira, você também, José Milhazes, foi para a Rússia muito jovem. Já havia alguma ligação ao país ou foi obra do acaso?

JM — Fui para a Rússia por questões políticas. A atração pela ideologia comunista, a curiosidade de ver experiências sociais novas. Quando se é jovem, deve-se sonhar e acreditar, mesmo que depois venham as desilusões.

SOL — Quando começou a ter as primeiras desilusões?

JM — Trata-se de um processo muito lento, pois a desilusão aumenta à medida que se vai entrando na sociedade soviética, quando se começa a fazer amizade com os soviéticos, a conhecer os seus problemas e dificuldades. Inicialmente, ainda pensei que o socialismo soviético era renovável, mas depois compreendi que o regime não tinha conserto.

SOL — Quais as maiores dificuldades com que se deparou na adaptação ao modo de vida russo?

JM — Para mim, praticamente tudo foi novidade, mas os portugueses têm grande capacidade de adaptação. Além disso, arranjei rapidamente novos amigos, nomeadamente russos, que ajudaram à minha integração. Segui sempre o princípio de que se em qualquer lugar do mundo se encontra um português, eu também posso viver e adaptar-me a quaisquer situações. Tive sorte porque a Rússia é um país fascinante.

J.C.SARAIVA | SOL

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