Publicado por: noticiasdesiao | 23 de fevereiro de 2015

O POVO ELEITO

A HISTÓRIA DOS JUDEUS NO PORTUGAL DE SALAZAR

Josh lendo Enciclopédia Verbo Juvenil

Tive uma infância difícil, privada de quase todo engenho tecnológico, incluindo televisão. Bendita dificuldade, pois forçou-me a procurar refúgio nos livros. Embora quando criança tenha lido quase todo tipo de livro, os que mais enchiam-me os olhos eram os expemplares das antigas enciclopédias ilustradas. Hoje, quatro décadas depois, e pai extemporâneo de duas crianças, surpreendo-me com as semelhanças que encontro no meu filho. Tal como o pai, ele é aquilo que o brasileiro convencionou chamar de “rato de biblioteca”.

Incompreendido pelas bibliotecárias – que talvez não levem a sério o seu interesse – às vezes ele é forçado a pedir socorro à irmã, que por já ter 13 anos pode requisitar livros que ele, aos 9, não tem acesso. Vencidas as barreiras, ele lê.

Um dia desses, para surpresa minha, meu filho chegou em casa com três exemplares de uma velha enciclopédia datada de 1964, o auge do Estado Novo, o regime ditatorial de António de Oliveira Salazar. Como atualmente moramos em Portugal, nada mais natural que as bibliotecas escolares ainda disponham dessas antigas publicações. Natural não é que os miúdos de hoje interessem-se por livros onde a viagem à lua era apenas uma quimera. Meu filho interessa-se.

Mais saudosista que curioso, tomei nas mãos um dos exemplares da Enciclopédia Verbo Juvenil e passei a folheá-la. Que delícia! Fui literalmente projetado de volta aos meus tempos de criança. E ao chegar às páginas 60 e 61 do volume 1 fui pego de surpresa com um texto maravilhoso sobre os judeus. Numa época em que as publicações educativas eram mutiladas pelos censores salazaristas e num período em que o ex-diplomata Aristides de Sousa Mendes vivia o auge do seu inferno pessoal, justamente pelo fato de ter apoiado judeus, encontrar publicado um texto como este foi um verdadeiro achado lítero-arqueológico.

Compartilho, então, com os leitores do Notícias de Sião a íntegra das páginas 60 e 61 da Enciclopédia Verbo Juvenil, publicada pela Editorial Verbo, sob orientação pedagógica de um tal Manuel Breda Simões. Mantive a grafia da época em todos os sentidos, respeitando os itálicos, os parêntesis e as maiúsculas originais. Por isso, se alguma parte do texto parecer fugir ao meu estilo, fica aqui a devida explicação.

Enciclopédia Verbo Juvenil

O POVO ELEITO

A um dos povos da antiguidade – o povo hebraico, vulgarmente conhecido por judeu – se tem chamado Povo Eleito, isto é, escolhido por Deus. Os judeus não constituíram um grande império, embora mantivessem sempre um acrisolado espírito de raça e de independência; não produziram, como os Gregos, grandes obras-primas literárias, filosóficas ou artísticas; mas deixaram-nos dois milénios de história gloriosa, de aventura sobrenatural: viagem enorme em busca de Deus e apenas por Deus orientada; e, sobretudo, deixaram-nos a Bíblia.

A Bíblia é a história dessa aventura divina. Minuciosamente, tudo engloba, numa sequência maravilhosa de capítulos, que são a um tempo crónicas, filosofia, conselhos morais e poesia autêntica, em que a grande personagem é o amor de Deus para com o seu povo…

A Bíblia, livro de Deus escrito para os homens, é a mais elevada expressão religiosa dos povos da Antiguidade. Sem perder o seu mistério e suma dignidade, o Senhor trata com os homens, fala a sua linguagem, partilha aparentemente dos seus interesses temporais, sonda-lhes o coração, guia-os para o verdadeiro fim. Escolhe o seu povo, e assim a história do homem eleva-se a “história sagrada”. Eis porque o perfil religioso dos Hebreus é único entre o de todos os povos antigos. A ideia central que lhes domina a vida é a de um Deus pessoal e único, criador e senhor absoluto de todo o Universo. A essa doutrina se chamou mais tarde monoteísmo, do grego monos (único) + theos (deus). Um Deus único escolhe um único homem, Abraão, primeiro, e depois Moisés, para, servindo-se dele, estabelecer uma aliança de amizade com o único povo que prepara a vinda do Messias que havia de realizar a redenção universal dos seres humanos.

Contra o que possa parecer, não abre a Bíblia com a histórica aventura dos Judeus. A primeira das suas partes é o Génesis, que começa por nos apresentar um quadro grandioso onde Deus cria do nada o Mundo; conta-nos, depois, a criação do primeiro homem, a queda dos nossos primeiros pais (Adão e Eva), ou seja, o pecado original, e a promessa, feita por Deus, de um redentor. Só então entra a Bíblia na história milenária do Povo Eleito, que acredita num único ser supremo e se vê cúmplice do pecado de Adão: história peregrina que relata a constante oferta do amor de Deus e as vicissitudes da recusa do seu povo, recusa que teve como termo a morte do próprio Messias.

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FONTE: VERBO ENCICLOPÉDIA JUVENIL Volume 1 páginas 60 e 61 – Editorial Verbo, Lisboa 1964.
ORIENTAÇÃO PEDAGÓGICA: Manuel Breda Simões
COLABORADORES: António Ferrer Correia, Miguel Freitas da Costa, José Esteves, Raúl Rosado Fernandes, Fernando Frade, Fernando Guedes, Antonino Henriques, José Marinho Raúl de Miranda, Natália Paes, Ricardo de Saavedra, Joaquim Veríssimo Serrão, Carlos Wallenstein.

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