CAMINHANDO

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES

Prepare o seu coração para as coisas que eu vou contar… Eu posso não lhe agradar (Geraldo Vandré em “Disparada”)

Shimon Peres recebendo Mario Vargas Llosa em seu Gabinete

O escritor peruano Mario Vargas Llosa acaba de ser anunciado como o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura do ano de 2010. Na tarde de hoje ouvi numa rádio européia “especialistas” em literatura analisando a escolha. Todos os entrevistados manifestavam surpresa diante do anúncio. Uma observação foi recorrente ao longo do dia entre os demais “especialistas” que foram entrevistados: O fato de Vargas Llosa ser “conservador” levava os críticos a jamais imaginarem que ele algum dia viesse a receber o Nobel. O ceticismo era tanto que mesmo Vargas Llosa espantou-se com a escolha.

Aí está o cerne da questão. Para boa parte da humanidade – e infelizmente a parte que controla as universidades, a cultura e alguns dos segmentos mais significativos da mídia – só há inteligência nas hostes esquerdistas, enigmaticamente chamadas de “progressistas”.

Recentemente, em desagravo ao último artigo publicado em NOTÍCIAS DE SIÃO, um esquerdista chamado Frederico criticou minhas posições por considerá-las “conservadoras” demais. Por conta disso fui acusado de não dialogar. Na acusação, Frederico atribuiu a falta de diálogo ao fato dos evangélicos brasileiros “não terem nada para dizer”.

Ou seja, ter posições conservadoras é admitir que não se tem nada para dizer. E se não concordamos com as idéias da Esquerda é porque não temos nós as nossas. Que lógica mais ilógica!

Voltando a Vargas Llosa: Por que o escritor peruano distinguido com o Nobel (talvez um dos mais merecidos dos últimos anos) foi uma surpresa para os esquerdistas?

Talvez o que mais incomode a Esquerda é o fato de que Vargas Llosa – ele mesmo um esquerdista no passado – ter traído os sacrossantos ideais quando se tornou – blasfêmia das blasfêmias – um conservador. Pior ainda: um conservador que admira e defende Israel! Isso é o fim do mundo para a Esquerda mundial!

Em maio deste ano Vargas Llosa esteve em Israel. No auditório da Universidade Hebraica de Jerusalém ele criticou com dureza os líderes latino-americanos Fidel Castro, Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez. Segundo a Agência Estado (AE), Vargas Llosa disse que Castro é “pré-histórico”, que Chávez é um “aprendiz de ditador” e a política externa de Lula é “irresponsável”.

“Há uma contradição entre a política interna e a externa de Lula”, disse Llosa. “Sua política interna é responsável e sua política internacional é irresponsável e demagógica, ao abrir as portas do Brasil e, com elas, as da América Latina, a pessoas como (o presidente iraniano, Mahmoud) Ahmadinejad”, concluiu.

O escritor fez os comentários em uma conferência na universidade, como parte de um colóquio internacional sobre as múltiplas perspectivas da América Latina. Em um discurso de uma hora, Vargas Llosa falou sobre a situação política, social e literária na América Latina.
O escritor disse existir uma “inclinação a idealizar América Latina, onde parecia que era possível o que na Europa era irreal”, pelo fato de a colonização do novo mundo ter sido “uma empresa imaginária, atiçada pela literatura, por relatos que alvoroçavam a cabeça de quem buscava riqueza”.

“O descobrimento da América aconteceu sob o mito e a ficção” e o novo mundo foi um reflexo das fantasias ocidentais, “onde se confundiam a lenda utópica e a verdade histórica”, disse Vargas Llosa.

“É imprescindível nestes momentos ver a verdade histórica, porque confundir a verdade com a ficção sempre teve conseqüências trágicas para a humanidade”, disse.

Ainda segundo a AE, Vargas Llosa afirmou que “é preciso limitar a mitologia à literatura e às artes e não deixar que precipite à política, onde é necessário manter uma visão realista, para pôr fim à pobreza e às diferenças sociais”.

Lula nas telas e Dilma recebendo passe na Umbanda. Nobel de Literatura adverte: É preciso limitar a mitologia à literatura e às artes e não deixar que precipite à política.

Estas palavras voltaram à minha mente quando li as críticas postadas no BLOG pelo tal Frederico. E embora já tenha respondido no local apropriado a estas críticas, acho pertinente repetir a resposta aqui.

As críticas de Frederico tinham por objetivo defender o “teólogo” Manuel Ribeiro de Moraes JR. Nesta defesa ele disse que “aos evangélicos [que apóiam Piragine] falta diálogo”. E isso acontece porque “os evangélicos não tem nada a dizer”.

Vasculhando a Internet descobri que o autor do comentário mantém um blog onde promove uma espécie de ciclo de debates intitulado “Conversa Sem Nome”. Um dia desses o “Conversa Sem Nome” realizou um interessante debate com o pomposo título “Filosofia e Religião no contexto da América Latina”. O debatedor do encontro chamava-se Alysson Amorim. Leiam um trecho do início do debate:

ENTREVISADOR: “Benvindo ao Alysson, nosso debatedor oficial da noite”. (…)
ENTREVISTADO: “Vou logo confessando: careço de formação em teologia e filosofia. Minhas paixões maiores são, nesta exata ordem, literatura e história”…

Ou seja, o debate era sobre Filosofia e Religião e o debatedor não entendia nada de… Filosofia e Religião. Mas, de literatura e história sim.

E aí voltamos novamente aos comentários que Vargas Llosa fez em Jerusalém: “É preciso limitar a mitologia à literatura e às artes”.

Por que estou destacando isso? Porque para os esquerdistas latino-americanos História é só aquela que passa pelo viés leninista-marxista. Assim como para os esquerdistas latinos-americanos literatura só é literatura se for politicamente engajada. E por isso entenda-se “concordar com a história” que, por sua vez, é isso que expliquei aí em cima.

O alerta do Prêmio Nobel de Literatura 2010 deveria ecoar dentro das universidades brasileiras: “É preciso limitar a mitologia à literatura e às artes”.

No alto de suas cátedras, professores esquerdistas vociferam histórias-da-carochinha como se fossem fatos reais. Haja vista a defesa demagógica que fazem dos “heróis que enfrentaram a ditadura militar brasileira”. Pura ficção. Ou, no mínimo, exagero programado que serve aos seus próprios interesses.

Quando falo isso sou olhado como o mais estranho dos seres humanos. “Você, uma pessoa tão esclarecida, ignora os horrores da ditadura militar!?”

Ignoro. As escaramuças trocadas entre militares e esquerdistas ao longo dos anos de governo militar nem de longe são o que os esquerdistas alardeiam por aí. Por exemplo: Em entrevista ao jornal O Povo, de Fortaleza, o cartunista Jaguar disse que foi preso algumas vezes durante o período militar e que não lamentava. Diante da surpresa do jovem entrevistador Jaguar explicou que aproveitava esses períodos para ler e beber. E beber junto com os militares que o vigiava.
Quando indagado das torturas, Jaguar gargalhou e disse: “Isso de dizer que foi torturado é coisa do Ziraldo. Ele adora dar uma de herói”.

Outra história da carochinha alimentada durante décadas pelos órfãos dos movimentos terroristas brasileiros dos anos 60 e 70 foi a lenda do Geraldo Vandré. Autor de duas músicas marcantes daquela época, Vandré foi demitido do serviço público e exilado. De volta ao país em meados dos anos 70, evitou o oba-oba provocado pelo “hino do retorno” (Eu Tô Voltando!) e caiu no ostracismo. As mais horrendas histórias percorreram o país: Vandré tinha sido torturado, era agora um farrapo humano a temer tudo e a todos.

Pois não é que Vandré, profeta de si próprio, resolveu romper o silêncio? Por que “Profeta de si próprio”? Explico: Um dos versos mais famosos de Vandré está no início do hit Disparada: “Prepare o seu coração / Pras coisas que eu vou contar / Eu venho lá do sertão / E posso não lhe agradar”.

Pois bem, Geraldo Vandré resolveu falar. E as palavras de sua “profecia” concretizaram os piores pesadelos dos saudosistas de plantão. Foi como se Vandré sussurrasse para aqueles que alimentaram mentiras a seu respeito ao longo desses anos todos: “Preparem seus corações para as coisas que eu vou contar. Eu posso não lhes agradar.”

Em entrevista à Globo News Geraldo Vandré não só recusou o rótulo de anti-militarista como concedeu a entrevista num clube militar, vestido com uma camisa do clube militar e tecendo rasgados elogios ao período do Governo Militar, que os esquerdistas gostam de chamar de Ditadura Palavra que, por sinal, Vandré recusou-se a usar ao falar dos militares.
Eis algumas pérolas pinceladas da sua entrevista:

“Quando terminei meu curso de direito e fui me dedicar a uma carreira artística já sabia que arte é uma cultura inútil. Mas, hoje eu consegui ser mais inútil que qualquer artista: Eu sou advogado num tempo sem lei. Quer coisa mais inútil que isso?”

Vandré admite que o “ambiente artístico” da sua época era inútil. Num dos momentos mais marcantes da entrevista, quando indagado sobre sua percepção de “gênios” como Caetano e Gil, respondeu usando palavras do próprio Gil. Nos idos dos anos 70 o ex-ministro de Lula teria dito para ele que quando compunha “fazia qualquer coisa”. Umas davam certo e outras não. Lacônico Vandré alfinetou: “Quanto a mim, eu não faço ‘qualquer coisa’”.

Mas, a alfinetada maior foi no atual momento institucional em que o país vive. Depois de tantos desmandos perpetrados pelo Governo Lula, Vandré, que é formado em Direito, lamenta: “Eu sou advogado num tempo sem lei. Quer coisa mais inútil que isso?”

A música mais famosa de Vandré é “Caminhando”. Como não podia deixar de ser, o entrevistador perguntou: “O fato de a música ‘Caminhando’ ter se tornado uma espécie de hino de protesto incomodou você ou não?”

De pronto Vandré respondeu: “Protesto é coisa de quem não tem poder. Eu não faço [fazia] canções de protesto. Eu fazia música brasileira e canções brasileiras. Essa história de protesto tem muito a ver com alienação denominatória. Não concordo com essa denominação ‘música de protesto’, não. Eu fiz música brasileira”.

Ao longo da entrevista, Vandré discorre como uma massa de manobra esquerdista pegou sua música (que seria perfeitamente aplicável nos dias de hoje, segundo suas palavras) e a transformou no tal hino de protesto. Estes esquerdistas passaram a ver no texto uma simbologia que o próprio autor não vira. E, de repente, o alheio Vandré virou um antimilitarista. Rótulo que ele repudia veementemente: “Nunca fui antimilitarista. Isso foi um grande equívoco. Uma grande manipulação. Quanto mais proibido [eram suas músicas], mais sucesso fazia, mais se vendia, menos conta se prestava”.

Pego de surpresa, o repórter tenta entender como ele, “tido como anti-militar”, acabou por escrever uma canção em homenagem à Força Aérea Brasileira!

Vandre reagiu: “Você [me diz que eu] ‘era tido’ [como anti-militar]. ‘Tido’ por quem? Isso deveria ser perguntado aos que a mim me tinham como antimilitarista. Eu não sou militarista, mas também não sou anti. Eu acho que todos os países soberanos do mundo têm suas forças armadas. O que nós devemos fazer com as nossas? Entregá-las para outras pessoas? Para outras nações? (risos) Eu acho que não”.

Mas, um “grande mistério” ainda pairava no ar. E o repórter quis saber: que existe sobre Geraldo Vandré durante todas estas décadas é o que aconteceu com ele depois da volta do exílio? Você foi maltratado fisicamente?” Novamente Vandré não titubeia: “Não, não fui torturado.”

Por que então teria Geraldo Vandré sumido por tanto tempo? Com vocês a resposta da boca do próprio Vandré: “Por uma falta de motivo, falta de razão, falta de ‘porque’ para voltar”.

Assisti de alma lavada à entrevista de Geraldo Vandré. Senti-me recompensado por todos os anos em que alimentei meu ceticismo em torno desta agora para mim simpática pessoa. Mas, como terão reagido os trouxas que acreditaram nas historiazinhas inventadas por seus professores esquerdistas? Bem, para estes teria sido melhor que Vandré tivesse morrido sem dar estas explicações. Assim ele ficaria para sempre no imaginário popular como o Tancredo Neves da Música Popular Brasileira.

Tancredo Neves, o político, nunca foi nada, nunca fez nada e não teria feito nada na presidência. No auge da campanha do Colegio Eleitoral que o elegeu, um ex-secretário particular da época em que ele fora primeiro-ministro desafiou, via Folha de S. Paulo, qualquer pessoa a apontar uma obra sequer de Estado que tivesse a marca de Tancredo Neves. Não apareceu ninguém que o fizesse.

Ao contrário de Geraldo Vandré, que teve tempo de abrir a boca e falar, Tancredo Neves morreu meio que “imolado”, com direito a funeral ao som de Milton Nascimento e Jornal Nacional Especial. Virou lenda. E os “istoriadores” brasileiros adoram isso: lendas.

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7 comentários sobre “CAMINHANDO

    • Shalom, Sebastião. Permita-me uma correção: Na nossa história, até onde minha memória alcança, não tivemos nenhum assassinato de Presidentes. Suicídio sim, mas não assassinato. Tancredo morreu de Diverticulite. Isso de assassinato é coisa de “istoriadores”. Quanto às canalhices, ele teve tempo sim de ao menos compactuar com elas. Tancredo Neves foi Ministro da Justiça do Governo Vargas. O Governo de Getúlio era anti-semita, simpatizava com o Nazismo de Adolf Hitler e negou abrigo à milhares de Judeus que fugiam do Holocausto. Além do mais, acabou enviando judeus brasileiros para morrerem em Campos de Concentração na Europa. E Tancredo Neves era Ministro deste Governo! Quer canalhice maior que esta?

      • Shalom Roberto!

        Pois é, as “istorinhas” que são contadas para o povo “dormir e acreditar”! É a realidade. Mas nossa realidade é nosso SENHOR YESHUA, nosso REI, o FILHO de D-S.

        Não sei se o irmão assistiu a noticia que a rede Record acabou de anunciar aqui: sobre o atropelamento de um garoto “palestino” por um “motorista israelense”. Pois é, como sempre o que é noticiado é somente para continuar alimentando o anti-semitismo. Ninguém procura divulgar detalhes e sim a “velha noticia”.

        Grande abraço. Você chegou a ver alguma coisa sobre o “Templo de Salomão” que a IURD vai construir aqui em São Paulo?

        Fique na PAZ do SENHOR YESHUA, PAZ que excede o entender!

        Shalom Adonai! Feliz Shabbat!

  1. ”Grande abraço. Você chegou a ver alguma coisa sobre o “Templo de Salomão” que a IURD vai construir aqui em São Paulo?”

    faço destas minhas palavras.

    quanto ao artigo ”pra nao dizer q não falei das flores” acho q passou do convervadorismo, pois minha mãe e tios e tias sofreram o autoritarismo militar da ditadura e até meu médico de cabelos grisalhos são unânimes em dizer ”q foi horrivel”aquele período. sera q todos eles estão totalmente errados e não sabem o q falam?

    pra ser ”conservador” não é necessario ser de direita nem anti-esquerda, nem tampouco de centro, nem independente, nem neutro, pois nossa ideologia é o evangelho acima das pretensões e escaramuças da direita e da esquerda. veja q na biblia não há defesa de linha ideológica nenhuma.e me incomoda essa falta de compaixão, ou pelo menos de tristeza com a morte inútil e luta sem razão dois dois lados e serem tratados como se fossem mera intriga ideo´logica de esquerda.

    um abraço,
    roberto porchat

    • Shalom, Roberto. Vi diversos artigos (e vídeos) sobre o tal templo da Universal. Trata-se de uma mistura de oportunismo mercantil com Teologia da Substituição. Quem sabe algum dia eu escreva algo sobre isso. Quanto ao período do Governo Militar, eu não “ouvi dizer”, eu “vivi” aqueles dias. Para mim, uma frase de Newton Araújo de Oliveira e Cruz, um dos generais da época, diz tudo: “Nosso maior erro foi não ter conquistado os historiadores”. A Esquerda o fez. O que acabou, à luz de uma pseudo-história, transformando vândalos em heróis. Eu diria que entre 70 a 75% dos que contam “estórias” sobre os rigores do Governo Militar são mentirosos (muitos deles são hoje políticos bem sucedidos). Quanto aos outros 25%, há de tudo entre eles: Ingênuos, vítimas involuntárias ou simplesmente… estúpidos.

  2. Gostei desse artigo. Sempre fiquei pensando sobre tudo o que se dizia do período militar e nunca tive a oprtunidade de saber pela boca de quem realmente viveu esse período e que mostrasse a outra face. Abraços.

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